Microslop: a Microsoft trocou o conserto do Windows por IA

A Microsoft prometeu consertar o Windows 11, mas seu grande evento teve quase 300 menções a IA e nenhuma a bugs. Entenda a revolta.

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Microslop: a Microsoft trocou o conserto do Windows por IA

Pediram conserto, entregaram agente

Em março de 2026, a Microsoft fez uma promessa que muita gente esperava ouvir havia anos: o Windows 11 ia ser consertado. Menos propaganda, menos botões do Copilot espalhados pelo sistema, mais desempenho e menos dor de cabeça.

Sete meses depois, no dia 7 de outubro, veio o evento Windows + Surface, o primeiro grande evento dedicado ao Windows desde o lançamento dos Copilot+ PCs em maio de 2024. No palco estavam Satya Nadella (CEO da Microsoft), Jensen Huang (CEO da NVIDIA) e Pavan Davuluri, chefe do Windows. Nas redes, tinha gente esperando novidades de estabilidade e até quem sonhasse com o Windows 12.

O que veio foram cerca de 70 minutos sobre inteligência artificial.

O site Windows Latest fez a contagem das palavras ditas no palco, e o resultado virou piada na internet:

Palavra Vezes citada no evento
"agent", "agents", "agentic" 100
"models" 71
"Copilot" 36
"AI" 31
"hybrid intelligence" 24
"Windows 11" 3
"quality" 1 (sobre um modelo de programação)
"fix", "bug", "reliability", "stability", "feedback" 0
Menu Iniciar, Explorador de Arquivos 0

Somando tudo que é termo de IA, dá quase 300 menções. A matéria chegou ao r/pcmasterrace com o título "Não pedimos mais Microslop" e passou de 3.700 votos positivos.

O apelido "Microslop" junta Microsoft com slop, gíria em inglês para conteúdo de IA feito em massa e sem cuidado. Pega mal, mas resume bem o humor da comunidade.

A ironia do Copilot

Um detalhe deixou a situação ainda mais constrangedora. Em março, o próprio Davuluri prometeu cortar "pontos de entrada desnecessários do Copilot" no Windows. No evento, a palavra "Copilot" apareceu 36 vezes.

É como chamar o encanador para consertar um vazamento e ele passar a visita inteira mostrando o catálogo de torneiras inteligentes. As torneiras até podem ser boas, mas a casa continua alagando.

O chat da transmissão ao vivo foi impiedoso. Algumas mensagens que o Windows Latest registrou:

  • "Esses eventos nem são mais para consumidores."
  • "100% foi papo de IA. Nada sobre desempenho, melhorias de qualidade de vida, design, remoção de bloatware."
  • "Eu só quero um sistema operacional normal que faça o que eu quero em vez de abrir o Bing."

E teve a frase que talvez melhor explique a revolta: "Não queremos IA. Queremos que ela suma, que seja um detalhe." O ponto aqui não é necessariamente arrancar a IA do Windows. É parar de colocá-la na frente do básico.

Teve coisa boa? Teve

Seria injusto dizer que o evento foi inútil. Algumas novidades foram bem recebidas:

  • Nova Pesquisa do Windows: construída em WinUI 3 (a biblioteca moderna de interface da Microsoft), ela permite ajustar o volume do microfone, ativar o modo escuro, tirar print, organizar janelas e até mandar mensagem, tudo direto da caixa de busca. Até o chat se rendeu: "ok, ok, essa da pesquisa é legal". Ela chega "ainda este ano" e, sim, continua com resultados do Bing.
  • Inteligência híbrida: roda a IA no seu próprio PC quando dá, e na nuvem só quando precisa. Para privacidade, processar localmente é sempre melhor.
  • Microsoft Execution Containers: uma espécie de cercadinho que controla quais arquivos e redes um agente de IA pode acessar. É uma ideia sensata de segurança.

O problema, como o próprio Windows Latest aponta, é que isso interessa a um público pequeno. A maioria das pessoas não roda modelos de IA localmente. Ela quer que o notebook ligue rápido e que a atualização não quebre nada.

O que foi prometido em março e o que chegou

A Microsoft publicou uma lista de correções em 20 de março e uma atualização em 31 de julho dizendo que a maior parte chegaria "neste outono" (do hemisfério norte). O Windows Latest conferiu item por item:

Promessa Situação
Mover a barra de tarefas para o topo ou para as laterais Entregue
Esconder "Recomendados" no Iniciar e escolher o tamanho do menu Entregue
Pular atualizações na configuração inicial do PC Entregue
Pausar atualizações por mais tempo Entregue (até 35 dias por vez)
Uma única reinicialização por mês para atualizações Entregue
Desligar resultados da web na Pesquisa Entregue
Menos botões do Copilot nos apps Quase tudo entregue
Explorador de Arquivos mais rápido Parcialmente entregue
Widgets menos intrusivos Parcialmente entregue
Menu do botão direito mais limpo Só no programa Insider
Nova Pesquisa em WinUI 3 Só no programa Insider
Novas janelas de Propriedades, Executar e AutoPlay Só no programa Insider
Otimização para PCs com 8GB de RAM Reanunciada, não entregue
Configuração mais rápida, com menos reinicializações Reanunciada, não entregue
Menu Iniciar refeito em WinUI 3 Não apareceu ainda
PIN do Windows Hello pelo controle em portáteis (como o ROG Xbox Ally X) Não apareceu ainda

Ou seja: uma boa parte já saiu. A versão 26H2 do Windows 11 chegou a todo mundo uma semana antes do evento, com melhoria de desempenho e menor uso de RAM nos testes do site. A crítica do autor é justamente essa: a Microsoft poderia ter gastado cinco minutos mostrando isso, e preferiu gastar o tempo com demonstrações de agentes. Na opinião dele, essa tabela num slide teria conquistado mais fãs do que qualquer demo.

A ferida dos 8GB de RAM

De todos os itens, o que mais incomodou foi a otimização para PCs com 8GB de RAM. "Cadê a promessa dos 8GB otimizados?", perguntou um espectador. Outro foi mais direto: "Agora mostra isso rodando num notebook de 200 dólares e me mostra o quanto é rápido."

Esse assunto não é novo aqui no blog. Em Windows 11 com 8GB de RAM ainda dá conta?, explicamos por que o inchaço do sistema consome a memória de computadores que até pouco tempo eram considerados bons.

E o timing piora tudo. A própria Microsoft ligou a otimização para 8GB ao aumento no preço da memória, e o Windows Latest lembra que as vendas de PCs caíram 20% enquanto a IA "come" a RAM do mundo. Já mostramos esse efeito em IA está encarecendo os PCs: os data centers de IA disputam os mesmos chips de memória que iriam para o seu computador.

É um ciclo curioso. A corrida da IA deixa a memória mais cara, o PC novo fica mais caro, o usuário segura o PC antigo por mais tempo, e o sistema operacional desse PC antigo dedica o grande evento do ano a mais IA.

Por que o Windows ficou em segundo plano?

Nos comentários do Reddit, várias pessoas tentaram explicar a falta de foco. Uma das teorias mais votadas é econômica: a maior parte do faturamento da Microsoft vem de empresas (B2B), através do Azure e do Microsoft 365. Um usuário citou relatos de ex-funcionários de que o time do Windows teria perdido prioridade dentro da empresa por causa disso.

Não há confirmação oficial dessas alegações, então trate como leitura da comunidade, não como fato. Mas a sensação geral é clara: quem usa o Windows em casa sente que deixou de ser o cliente principal.

E o que você pode fazer com isso?

Se você está satisfeito com o Windows 11, nada muda. Várias melhorias reais chegaram neste ano e outras estão a caminho.

Agora, se você está cansado de esperar, este é um bom momento para conhecer alternativas sem drama:

  • Teste o Linux sem compromisso. Um pendrive com uma distribuição como Linux Mint ou Ubuntu roda o sistema direto da memória, sem mexer no seu disco. Se gostar, instala. Se não, tira o pendrive e segue a vida.
  • PC antigo não é lixo. Uma máquina com 8GB que sofre com o Windows 11 costuma ficar confortável com uma distro leve. Falamos disso no guia sobre o fim do suporte ao Windows 10.
  • Games também rodam. Com o Proton da Valve, boa parte da biblioteca da Steam funciona no Linux. A exceção continua sendo jogos com anti-cheat que bloqueia o sistema, então vale conferir os seus favoritos antes.
  • Quer ir além? Se a ideia é ter um desktop bonito e do seu jeito, o HyDE entrega um ambiente Hyprland pronto no Arch Linux.

A própria conclusão do Windows Latest é equilibrada: a IA pode ficar, mas as pessoas compram um PC com Windows para usar o Windows, e o próximo evento deveria começar por aí.


Fontes e Links: