Uber vigiando você? A câmera secreta dentro do carro

A Flock Safety queria usar carros de Uber e Lyft para rastrear placas e rostos em tempo real. Entenda o plano e como proteger sua privacidade.

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Uber vigiando você? A câmera secreta dentro do carro

Imagine entrar em um carro de Uber para ir ao trabalho. Durante o percurso, você passa por uma praça, por uma escola, por um posto de saúde. O que você não sabe é que o veículo em que você está é, ao mesmo tempo, uma câmera de vigilância em movimento, capturando as placas e os rostos de cada pessoa que cruza o seu caminho.

Isso não é roteiro de ficção científica. Era, literalmente, o plano da empresa Flock Safety, revelado em documentos internos que vieram a público nas últimas semanas. A empresa planejava equipar 350.000 veículos das plataformas Uber e Lyft com câmeras inteligentes para formar uma rede de vigilância móvel e automatizada em escala nacional.

E, como se isso não bastasse, outra investigação revelou que a Flock já havia reativado câmeras de vigilância em ruas de uma cidade americana, chamada Littleton, sem notificar nem pedir autorização às autoridades locais.


Quem é a Flock Safety e o que eles fazem?

Antes de tudo, é importante entender quem é a Flock Safety. A empresa americana fornece câmeras de segurança com reconhecimento automático de placas veiculares para condomínios residenciais, empresas privadas e, principalmente, departamentos de polícia em cidades dos Estados Unidos.

O argumento de venda é simples: as câmeras capturam e armazenam dados de placa de todos os carros que passam por elas, criando um banco de dados consultável por policiais em busca de veículos suspeitos ou desaparecidos.

Parece útil à primeira vista. O problema começa quando você expande a escala e remove a supervisão humana do processo.


O plano dos 350.000 carros

Os documentos revelados mostram que a Flock Safety negociava com as plataformas Uber e Lyft para instalar suas câmeras nos veículos dos motoristas parceiros. O objetivo era aproveitar a natureza do negócio de transporte por aplicativo: carros circulando por ruas residenciais, avenidas e bairros durante 10, 12, 14 horas por dia.

Cada carro equipado se tornaria um ponto de coleta de dados em movimento. Em vez de câmeras estáticas instaladas em postes (o modelo atual da Flock), a empresa teria uma rede de vigilância que cobre ruas onde câmeras fixas nunca chegam: o interior de condomínios fechados, vielas residenciais, zonas rurais.

O sistema leria automaticamente as placas de todos os veículos ao redor, registrando data, hora e localização de cada passagem. Ao longo de semanas e meses, esse banco de dados permitiria rastrear o histórico de deslocamento de qualquer carro, e consequentemente de qualquer pessoa, com precisão assustadora.

Pense na analogia: é como se cada Uber fosse um espião de bairro involuntário, anotando num caderno quem passa pela rua a cada segundo e entregando esse caderno para uma empresa que você nunca contratou e nunca autorizou.


As câmeras que voltaram sem avisar

A história da Flock ficou ainda mais perturbadora com o caso da cidade de Littleton, no estado do Colorado.

A cidade havia firmado contrato com a Flock Safety para instalar câmeras de vigilância em espaços públicos. Em algum momento, o contrato foi suspenso ou as câmeras foram desligadas por decisão da administração local.

O que as autoridades de Littleton alegam ter descoberto é que a Flock Safety reativou as câmeras remotamente, sem comunicar a cidade e sem qualquer autorização. As câmeras voltaram a funcionar, a coletar dados de placas e a enviar essas informações para os servidores da empresa, tudo isso enquanto os gestores da cidade acreditavam que o serviço estava desativado.

A cidade iniciou o processo de cancelamento do contrato assim que o caso foi confirmado. A situação expõe um ponto crítico da era dos dispositivos conectados: quando um equipamento físico pode ser controlado remotamente por uma empresa privada, quem tem o controle real sobre ele?


Isso é problema só nos EUA?

Não. A discussão sobre vigilância automatizada e coleta de dados em espaço público é global e o Brasil não está fora dessa realidade.

Câmeras com reconhecimento de placas já são utilizadas por autoridades municipais e estaduais em várias cidades brasileiras. Sistemas semelhantes ao da Flock já são fornecidos por empresas privadas para condomínios e prefeituras no país. A diferença é que a legislação brasileira, incluindo a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), estabelece obrigações sobre o tratamento e armazenamento desses dados, mas a fiscalização real sobre como empresas privadas usam essas informações ainda é incipiente.

O caso da Flock nos EUA é um lembrete de que a coleta de dados em massa, quando feita por empresas privadas com pouca supervisão, pode ser reativada, redirecionada ou compartilhada sem que você saiba. E isso vale igualmente para apps no seu celular, como já documentamos no nosso artigo sobre apps Android vendendo sua localização, e para dispositivos dentro da sua casa, como abordamos no post sobre Smart TVs compartilhando sua internet.


O padrão que se repete: dados coletados sem consentimento real

Os casos que cobrimos nas últimas semanas no Flateek formam um padrão claro:

  • Óculos da Meta capturando rostos em tempo real em lugares públicos
  • Apps Android vendendo sua localização GPS para corretoras de dados
  • Smart TVs compartilhando sua banda larga com terceiros como proxy residencial
  • Câmeras de vigilância reativadas remotamente sem autorização municipal

O denominador comum é sempre o mesmo: empresas com acesso privilegiado a hardware ou software que você usa no dia a dia, coletando dados que vão muito além do serviço que você acreditava estar contratando.


O que você pode fazer para se proteger?

A realidade é que proteger sua privacidade em espaços públicos é muito mais difícil do que proteger dados na sua rede doméstica. Você não controla as câmeras da rua nem os carros ao seu redor.

Mas existem práticas que reduzem sua exposição digital de forma geral:

  1. Revise as permissões de localização dos apps no seu celular. Aplicativos de transporte como Uber e 99 precisam de localização enquanto você usa, mas não continuamente em segundo plano.
  2. Use um DNS com bloqueio de rastreadores na sua rede doméstica. Ferramentas como Pi-hole ou AdGuard Home bloqueiam comunicações suspeitas de dispositivos IoT na sua rede antes que elas saiam para a internet.
  3. Desative o compartilhamento de dados analíticos nas configurações de todos os apps que você usa. Vá em "Configurações" do aplicativo e procure por opções como "Compartilhar dados de uso" ou "Analytics".
  4. Acompanhe a legislação local sobre vigilância pública. No Brasil, a LGPD garante o direito de saber quais dados uma empresa tem sobre você e de solicitar a exclusão.

Fontes


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