Flock Safety: CEO chamado de ameaça e a capa de impressão 3D

Comissário do Tennessee classifica CEO da Flock Safety como ameaça à privacidade. Ao mesmo tempo, um entusiasta de impressão 3D compartilhou um design para cegar as câmeras da empresa.

Compartilhar
Flock Safety: CEO chamado de ameaça e a capa de impressão 3D

Se você acompanha o Flateek, já conhece bem a Flock Safety. Nos últimos meses, cobrimos o plano da empresa de instalar câmeras em 350.000 carros de Uber e Lyft, o caso em que a Flock reativou câmeras em uma cidade sem pedir autorização e a revelação de que o governo americano passou a monitorar perfis online que criticavam a empresa.

Na semana passada, o nível de reação pública subiu mais um degrau: um comissário de condado no Tennessee classificou o CEO da Flock Safety como uma ameaça à comunidade. E, na mesma semana, um entusiasta de impressão 3D publicou o design de uma capa chamada "Flock Sock", criada para ser encaixada sobre as câmeras da empresa e bloquear o campo de visão delas.

São dois eventos muito diferentes, mas que juntos revelam o ponto em que chegou a resistência pública à empresa.


O que disse o comissário do Tennessee?

Em uma reunião do governo do condado de Sullivan, no Tennessee, o comissário local não poupou palavras ao se referir ao CEO da Flock Safety. A declaração, que circulou no r/technology com mais de 16 mil upvotes, classificou o executivo como uma ameaça direta à privacidade dos cidadãos da região.

O que torna essa crítica notável é o contexto político de onde ela vem. O Tennessee é um estado conservador, e a resistência à Flock Safety nesse caso não vem de grupos progressistas preocupados com vigilância digital, mas de autoridades locais de orientação conservadora que veem o sistema de monitoramento em massa como um risco ao direito individual à privacidade.

Esse ponto é importante: a oposição à Flock Safety começou a unir pessoas de espectros políticos bem diferentes, o que indica que a preocupação com vigilância automatizada sem regulamentação está deixando de ser um nicho e virando um debate mais amplo.

O comissário de Sullivan não foi o primeiro. Outros estados e municípios nos Estados Unidos têm questionado contratos com a Flock Safety, especialmente após os casos de reativação de câmeras sem autorização que vieram a público.


O que é o "Flock Sock" e como funciona?

Do outro lado do espectro de resposta, um entusiasta de impressão 3D publicou na semana passada o design de uma peça que chamou de "Flock Sock" (algo como "capa para câmera Flock" em tradução livre).

O design é uma capa que se encaixa diretamente sobre a câmera da Flock Safety, bloqueando completamente o campo de visão. A peça foi projetada para ser conectada à ponta de um cabo de vassoura comum, o que permite que qualquer pessoa alcance os dispositivos instalados em semáforos e postes de iluminação, que geralmente ficam a 3 ou 4 metros de altura.

O designer compartilhou o arquivo de impressão de forma aberta e gratuita, sem restrições de uso. A legalidade de colocar um Flock Sock em uma câmera instalada em espaço público varia de acordo com a jurisdição, e obstruir equipamentos públicos pode ser enquadrado como vandalismo em muitos lugares. O designer deixou claro que compartilha o design como declaração política e artística, não necessariamente como incentivo direto ao uso.

Do ponto de vista técnico, a impressão 3D em filamento PLA ou PETG seria suficiente para produzir a peça. O design foi elogiado pela comunidade pela praticidade e pela precisão de encaixe.


O padrão da Flock Safety

Para quem está chegando agora nessa série, um resumo do que cobrimos sobre a empresa até hoje:

A Flock Safety foi fundada em 2017 e se especializou em câmeras de leitura automática de placas veiculares (ALPR, na sigla em inglês) para condomínios, empresas e, principalmente, departamentos de polícia. O modelo de negócio é baseado em contratos com municípios: a empresa instala as câmeras, mantém a infraestrutura e cobra mensalidade pelo acesso ao banco de dados de placas.

O que a diferencia de câmeras de segurança convencionais é a escala e a interconexão. As câmeras da Flock não apenas gravam: elas leem automaticamente cada placa que passa pelo campo de visão, registram hora, data e localização, e alimentam um banco de dados consultável por qualquer departamento de polícia que tenha acesso ao sistema, não apenas o da cidade onde a câmera está instalada.

Em uma cidade com contratos Flock espalhados por vários pontos, é possível reconstruir o trajeto de um veículo específico ao longo de dias ou semanas, cruzando os registros de diferentes câmeras. Para veículos suspeitos, isso é uma ferramenta de investigação. Para qualquer outro motorista, é um histórico de deslocamento que ele nunca autorizou ser criado.

O caso que escalou para o nível político foi a reativação remota de câmeras em Littleton, no Colorado, sem comunicação ou autorização da administração municipal. Quando o hardware é de propriedade de uma empresa privada e controlado remotamente por ela, a cidade que o contrata não tem controle real sobre o que o dispositivo faz. Esse ponto tem sido central no debate nos últimos meses.


Por que isso importa para além dos Estados Unidos?

Sistemas de câmeras com leitura automática de placas já existem no Brasil, operados tanto por empresas privadas quanto por autoridades municipais e estaduais em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. A tecnologia em si não é exclusiva da Flock Safety, mas os princípios do debate americano se aplicam diretamente.

As questões centrais são as mesmas em qualquer país:

Quem tem acesso ao banco de dados de placas e por quanto tempo ele é armazenado? Existe supervisão sobre quem pode consultar esses dados e para quais finalidades? O que acontece quando o contrato com a empresa privada termina? Os dados coletados durante o contrato são devolvidos, destruídos ou retidos pela empresa?

A LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) brasileira estabelece obrigações sobre o tratamento de dados pessoais, e a placa de um veículo pode ser considerada um dado pessoal quando associada ao proprietário. Mas a fiscalização efetiva do uso desses dados por empresas privadas e pelos órgãos públicos que as contratam ainda é incipiente no Brasil.

O caso Flock Safety serve como um aviso de onde esse modelo pode chegar quando não existe supervisão robusta: câmeras que retornam sozinhas, bancos de dados compartilhados além do escopo contratado e uma empresa com mais informações sobre os deslocamentos dos cidadãos do que as próprias prefeituras têm.


Fontes


Quer acompanhar os próximos desdobramentos do caso Flock Safety?

No Flateek, documentamos vigilância digital e ensinamos como construir sua própria infraestrutura de privacidade. Assine nossa newsletter gratuita e não perca nenhum episódio dessa série.